Este Blog foi criado como portfólio virtual onde apresento meus projetos, pensamentos acerca da arte, arquitetura, cidade e ser humano e minhas pinturas. A trajetória do saber como expressão e formação do artista e do arquiteto
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sexta-feira, 27 de março de 2009

VERTICALIZAÇÃO BÍPEDE DE UMA ESPECULAÇÃO MÓVEL

" Water Serpents II", 1904-1907, óleo sobre tela 80x145cm
Gustav Klimt (1862-1918) - Viena, Austria
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No meio de alguns papéis encontrei um texto, ou melhor, um conto de minha autoria que achei pertinente incluir aqui.
Eu sei que, como arquiteto, deveria postar algum desenho, croquis ou fotos de alguma obra construída, mas acho que nada melhor que um texto, como processo de uma idéia, para redesenhar, através do silêncio da mente humana, a natureza inventada.
É da colisão do silêncio com a turbulência da mente humana que parte a arquitetura e não de uma planilha numérica.

Boa leitura e espero construir momentaneamente o silêncio em alguma mente.


CONTO EM VÃO
Adriano Carnevale Domingues


Quando morro perco a visão da hipocrisia, da injustiça destes homens de merda.
Um dia percebi que a produção só é valida quando possui o peso de sua remuneração, até mesmo sem qualificação;
As terras sobre as quais pisamos, nos impõem obstáculos que ultrapassamos só quando os analisamos, entendemos e confrontamos nossas vontades , qualificando-os não como barreiras, mas como ferramentas que nos ajudam, não nos pertencendo em hipótese alguma.
­_ O que será da minha vida?- Perguntou-me minha cabeça.
_Talvez ela já esteja sendo alguma coisa - retruca a inquietude.
_Quem está falando por mim? - interrompe subitamente minha boca.
Levanto-me vou até a janela, estou fora da terra, aproximadamente a sete andares dos meus obstáculos, não os toco, mal os vejo, meus pés medem o espaço em que vivo percorrendo os mesmos ambientes varias vezes por dia e perco assim a importante percepção do que é real e do que invento como obstáculo para des-humanizar nossa vida , satisfazendo nosso ego ao acreditarmos que os vencemos.
_Mas espere um pouco. Interrompe meu raciocínio.
_Porque devemos nos sentir vitoriosos com os obstáculos que nos mesmos criamos? Qual é o real valor disto?
_Não há valor real nisto, pois nós perdemos a percepção - complementa a lógica.

quarta-feira, 4 de março de 2009

"O Colosso" , 1808-1812, óleo sobre tela
Francisco de Goya (1746-1828) ou Asensio Juliá?
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Sempre achei que a arquitetura devesse ser como uma música flamenca; Lucio Costa dizia que uma vez comprovada a funcionalidade do programa ou do objeto construido, o resto seria arquitetura, concordo plenamente e acrescento uma visão pessoal de que o resto seria musica flamenca petrificada. O resto seria o tesão, o ódio, o amor, a carne, o grito, o choro, o gozo, assim como nesta mais humana das formas artísticas, onde o próprio corpo serve de instrumento; seja nas palmas secas e ardidas, ou no trote quase animalesco das pisadas compassadas intercaladas pelo toque das pontas dos dedos em castanholas que se interrompem por gemidos viscerais como som de uma alma em ebulição.
Hoje dentro do meu carro, andando pela cidade, começou a tocar no radio o movimento largo da ópera “Xerxes”(Serse) de G. F. Handel que me fez fechar os vidros e aumentar o volume. Ao abafar o barulho urbano, deixando-o quase como uma apresentação mímica em movimento allegro, a melodia transformou a cena externa ou quem sabe a minha percepção daquilo que via e comecei a acompanhar a vida cotidiana quase que amortecido ao alcançar um ponto de suspensão que talvez apenas a música, dentre as artes, permita que isto aconteça.

Talvez isso devesse ser o meio humanoarquitetônico; criar pontos de suspensão na alma flamenca daquilo que vemos e somos.